Declinação latina – 4

O caso genitivo é comumente classificado como o caso que expressa posse por excelência (genitivus, palavra latina de que obtivemos o correspondente português, é o particípio perfeito do verbo gigno, que significa “dar a luz a”, “conceber”). As relações implicadas pelo caso genitivo também podem ter outros sentidos, ainda que todos tenham relação indireta com possessão. Como exemplo, temos em nossa língua a preposição “de” (sabemos que não existem alterações morfológicas nas nossas palavras, sendo as preposições um substituto satisfatório para essa falta), que marca posse (“A casa dela”) ao mesmo tempo que pode marcar qualificações diversas (“Um charuto de prata e cobre”; “Mulheres da Tessalônia”; “Animais de coragem” etc.).

Em latim, pela própria relação íntima com nossa língua, os usos e aplicações do genitivo são muito semelhantes, ainda que nesta língua se observe clara alteração morfológica (flexão nominal) nos substantivos, quando exercendo essa função. Ainda na morfologia, o genitivo latino é grandemente aplicado e analisado mesmo pelo estudante mais basilar da língua, uma vez que é costume antigo dos docentes apresentar cada substantivo em conjunto com sua desinência no genitivo singular. Por exemplo, ao consultar em um bom dicionário a palavra latina para “estupidez”, será altamente improvável encontrar a entrada amentia escrita isoladamente, devendo vir indicado a seu lado o afixo -æ (ou -ae), informando-nos, automaticamente, que o referido termo é um substantivo da primeira declinação latina. Esse artifício é usado com muita frequência pelo simples fato de que as desinências no genitivo singular são diferentes para todas as cinco declinações latinas. Observe o quadro:

tafla

É possível que, no genitivo singular, o substantivo, pela falta de pluralidade de sílaba ou outro motivo, tenha forma muito diferente do nominativo, caso em que necessariamente virá escrita por extenso sua forma genitiva, em lugar de apenas a indicação da terminação, como em rex, regis ou nox, noctis. Não existem em latim preposições regendo o genitivo. O genitivo dos pronomes pessoais é como segue:

tafla2

Ressalte-se que o genitivo dos pronomes pessoais não exerce a função de posse (para isso temos os pronomes possessivos). Falei acima que preposição latina nenhuma rege o genitivo, mas o mesmo não ocorre com verbos e adjetivos especiais, que requerem o genitivo dos nomes e pronomes. Tanto nos quanto vos têm adicionalmente as forma nostri e vestri, para o genitivo, respectivamente. Não há confundir, pois nostrum e vestrum têm sentido de “dentre nós”/”dentre vós”, enquanto nostri e vestri são usados para os demais sentidos (os verbos que regem o genitivo em latim são poucos; o mais notável é misereo [ter pena de]: Dii nostri non miserebunt [Os deuses não terão pena de nós])

O uso mais difuso do genitivo em latim é, mesmo, o de posse e qualificações, com o substantivo declinado no genitivo classificando ou especificando outro substantivo, presente na mesma oração e comumente alocado próximo ao nome flexionado, como acompanhamos nos exemplos seguintes:

1) Dice nobis, Octavia: uter nostrum pulchrior est?1
2) Hæc platea imperatoris non iam est.2

O segundo exemplo nos traz uma construção igual a que temos em nossa língua, qual seja o uso do verbo “ser” em conjunto com o genitivo para indicar posse (tal não ocorre nas construções germânicas, pelo menos não de forma direta).

De modo geral, o genitivo latino se conservou nas línguas românicas, no que diz respeito à forma em que se aplica nas sentenças e também às funções. Em português, francês, espanhol, e italiano (para citar apenas as línguas de significação geopolítica) se perdeu a marcação morfológica dos casos gramaticais, incluindo aí o genitivo, ainda que as marcações semânticas tenham persistido e mesmo sofrido poucas alterações. Em romeno, a única língua neolatina que conservou o sistema de flexão nominal, o caso genitivo tem a mesma forma do caso dativo. Nesta língua, temos preposições regendo o genitivo, como por exemplo: asupra (com respeito a: Un text asupra noastră3); deasupra (acima de: Puneti deasupra cremă4); la mijlocul (no meio de: Sunt la mijlocul drumului5); în timpul (durante: Poti răne insărcinată in timpul menstruaţiei?6); entre outras.

1 Diga-nos, Octavia: qual de nós é mais bonito?.

2 Esta rua não é mais do imperador.

3 Um texto sobre nós.

4 Ponha em cima do creme.

5 Estou no meio da rua.

6 Pode-se ficar grávida durante a menstruação?

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