Habilidades linguísticas – 1

Pense em seu cérebro como um dispositivo qualquer, um processador de computador, por exemplo. Ele, dentro desta analogia, pegaria uma série de dados e informações desordenados e enviaria ordenadamente a quem coubesse. É como um empregado de uma empresa responsável por receber todas as correspondências recebidas e separá-las de acordo com o destinatário específico, tal ou tal setor, departamento etc. É claro o bastante que o cérebro humano é, de fato, uma versão incomparavelmente mais desenvolvida de um processador de computador, e ele realmente opera com seus dados e informações dessa maneira, atuando como contraparte central. Com relação aos dados, eles podem ser um estímulo físico, uma luz ou qualquer outra ação externa que possa ter repercussões biológicas. Essa definição aplica-se perfeitamente às informações linguísticas. Elas podem entrar na forma de sons, quando temos a caracterização oral da língua, ou de dados visuais, inseridos dentro da modalidade escrita da língua (e também gestual). Temos feito, pois, duas conceituações relevantes:

i. A língua pode ser falada; ou
ii. A língua pode ser escrita (ou gestual).

Prosseguindo, e também retornando à comparação do cérebro com um dispositivo eletrônico, já somos habituados à divisão das informações como sendo de entrada ou de saída. Basicamente, informações de entrada são as externas que chegam ao centro de processamento, enquanto as de saída são as que saem desse centro em direção a onde quer que caibam. No caso específico das informações de saída, é importante notar que elas necessariamente já passaram pelo centro de processamento (talvez convenha notar que a palavra processo provém do particípio passado do verbo latino procedo, que grosseiramente podemos traduzir por “ir adiante”; o que nos faz pensar em processamento como uma ordenação em série). Os órgãos responsáveis pelo recebimento das informações linguísticas, quais sejam stricto sensu os olhos e os ouvidos, são, assim, os dispositivos de entrada de nosso organismo. Do mesmo modo, a boca (ou o conjunto de órgãos e sistemas responsável pela reprodução dos sons) e todo e qualquer instrumento corporal que possa ser usado para a transmissão de ideias na forma de gestos (praticamente todo nosso corpo) serão os dispositivos de saída em nós. Por uma inferência brusca, podemos concluir adicionalmente que:

iii. A linguagem pode ser recebida; ou
iv. A linguagem pode ser transmitida.

Agora já me é possível combinar os resultados de nossa observação induzida para apresentar as quatro habilidades linguísticas. Antes delas, é preciso ressalvar que se trata aqui apenas de oferecer uma imagem geral da forma com que nós, não como cérebros mas como indivíduos compostos, operamos com a linguagem. Com palavras simples e diretas, podemos dizer que as quatro habilidades linguísticas são:

a) capacidade de compreender o que se ouve;
b) capacidade de compreender o que lê;
c) capacidade de falar;
d) capacidade de escrever.

Interessa-me especialmente aplicar todas essas conceituações ao processo de aprendizagem de uma língua estrangeira, atividade que gera quase tantos lucros indevidos quanto o mercado de produtos e serviços de emagrecimento para obesos mórbidos. Fazemos uso, quando usamos nossa língua materna, dessas quatro habilidades de forma indistinta, a ponto de achar muito naturalmente que se tratam todas de uma mesma coisa. Para apagar essa ideia da cabeça, basta lembrar que tivemos de ser alfabetizados para poder escrever/ler este texto. Levou anos para identificar todas as combinações possíveis de símbolos, e outros tantos para aprender a aplicá-las adequadamente (por exemplo, compare a forma como uma criança descreverá por escrito um objeto qualquer, e a forma como um homem adulto devidamente escolarizado o fará). Separar as quatro habilidades e saber como se aplicam é passo fundamental e indispensável na aquisição de proficiência em uma língua estrangeira. Em primeiro lugar, porque evita desencorajamentos decorrentes do progresso lento ou inexistente. Acessoriamente, permite que identifiquemos com clareza em que ponto reside a falha e nele trabalhemos. O primeiro erro é pensar, como já falado, que todas as quatro são unas e interligadas. Nada mais absurdo. Ser capaz de ler um texto inteiro em grego com perfeição de forma nenhuma significará ser capaz de compreender uma conversa em grego, ou mesmo ainda ser capaz de escrever um texto ou dizer frases com sentido. No entanto – já deixamos claro mais acima -, no caso das capacidades de saída (falar e escrever com sentido), como as informações necessariamente já entraram para que pudessem ser processadas e enviadas, fica implicada a capacidade correspondente de entrada. Isso pode parecer complexo e obscuro, a não ser que percebamos que: se sou capaz de falar, necessariamente sou capaz de entender a fala (o inverso não ocorre); se sou capaz de escrever, necessariamente sou capaz de entender a escrita (o inverso não ocorre). No gráfico seguinte, as implicações só se dão no sentido das setas, e as capacidades não ligadas por seta não se relacionam:

skills

O pretendente à proficiência numa língua estrangeira precisa atentar isoladamente para cada um dos quatro pontos. E também decidir em quais ele deseja ser ótimo e em quais apenas bom. Se suas intenções com uma língua estrangeira qualquer são de comunicação oral com outras pessoas, nativas ou não, que também a falam, falar e compreender a língua falada devem ser seus pontos fortes, e escrever e ler serão competências acessórias. Se é seu objetivo estudar sua sintaxe e compreender sua gramática, por motivos quaisquer, decerto lhe interessará pouco conversar naquela língua, motivo pelo qual a prática oral não será frequente no seu processo. Pessoas com interesse econômico em certo idioma, que por motivos de promoção pessoal são compelidas a aprendê-lo, serão obrigadas a estabelecer um equilíbrio entre o desenvolvimento das quatro habilidades. O que importa é entender como se dá o processo de aprendizagem (isso também lhe ajudará a se desvincular dos métodos vis e larapiosos comumente ofertados no mercado [!]) e quebrar o mito da “competência linguística plena”, que pode conduzir um autoestudante à desistência precoce por achar seus resultados ínfimos, diante do que o imaginário super-homem dos cursos é capaz de realizar.

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7 Respostas to “Habilidades linguísticas – 1”

  1. Zud Says:

    Texto muito bom. Como faço para citar a fonte? Gostaria de mais dados sobre o autor.

  2. Celso Melo Says:

    Olá, Zud. Eu sou o autor, e informações sobre mim você encontra no ‘About me’ do blogue. Qualquer dúvida ulterior, contate-me pelo e-mail celso.re@hotmail.com.

  3. Márcia Says:

    Há um erro de escrita com esta parte do texto, apesar de muito

    bom…capacidade de compreender o que se houve;

    HOUVE OU OUVE

  4. kaique guerra Says:

    Olá, Celso. Estou no meu primeiro semestre de Letras com habilitação em Inglês, gostaria de algumas recomendações suas (extraclasse). Livros, artigos, e o que estudar… Enfim, mande-me, se puder e o que puder.
    Você tem ótimos textos, rapaz! Gostaria de escrever tão bem quanto.

  5. Neide Dias Says:

    Não está errado! É ouve do verbo ouvir (ouvido), seria Houve se fosse do verbo haver. Ok?

  6. Martinx Says:

    Capacidade de compreender o que se OUVE, está corretíssimo!

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